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|Crítica| 'Natal Amargo' (2026) - Dir. Pedro Almodóvar

|Crítica| 'Natal Amargo' (2026) - Dir. Pedro Almodóvar

Crítica por Victor Russo.

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'Natal Amargo' / Warner Bros.

 

Título Original: Amarga Navidad (Espanha)
Ano: 2026
Diretor: Pedro Almodóvar
Elenco: Leonardo Sbaraglia, Bárbara Lennie, Aitana Sánchez-Gijón, Victoria Luengo, Patrick Criado e Milena Smit.
Duração: 112 min.
Nota: 3,5/5,0

 

Autoparódia de Pedro Almodóvar carrega o amargo sentimento de um cineasta que terá para sempre sua obra inacabada

Todo grande cineasta tem em seus filmes um pouco de si, dos sentimentos, traumas e acontecimentos que moldaram sua vida, além daquilo que conseguem observar no mundo e em pessoas próximas. Assim, se a filmografia de Pedro Almodóvar sempre carregou questões inerentes a ele, como a sexualidade, o prazer, os relacionamentos e, claro, as diversas representações femininas, ligadas mais ou menos diretamente a sua mãe, Dor e Glória deu uma nova perspectiva ao seu cinema, criando um retratato mais pesaroso e explicitamente autobiográfico, um filme que reconhece sua própria existência como filme e como uma representação do seu cineasta em tela.

Ainda que Mães Paralelas conserve um tanto dessa dor e relação materna ambígua, é Natal Amargo que retorna de forma mais direta a essas crises do cineasta consigo mesmo, seus traumas, paixões e crises. Não à toa, Leonardo Sbaraglia vive Raúl, um cineasta escrevendo um roteiro de um filme sobre Elsa (Bárbara Lennie), que também é diretora de cinema e passa por uma crise de ansiedade quando isso “ainda não era comum”. A silhueta de Sbaraglia, seu cabelo, barba e o modo de se portar denunciam sem qualquer pudor essa aproximação com Almodóvar, enquanto Elsa, também sem muita sutileza, representa essa relação do cineasta espanhol com as mulheres, que tanto dominaram suas obras e a qual ele escolhe como sua versão do filme dentro do filme, e posteriormente será anunciada como uma versão do seu trauma para com sua mãe, parte quase integral de suas obras.

Dessa forma, ainda que carregue o seu melodrama novelesco de sempre, com cores vivas em cenários e figurinos, é no humor que o diretor se debruça para falar mais explicitamente sobre si, em uma espécie de autoparódia carinhosa capaz de rir de si mesmo sem perder de vista a obstinação por suas paixões. Se todos esses elementos presentes são tão reconhecíveis como parte dele enquanto pessoa, além do seu cinema em si, é justamente porque Natal Amargo mal tenta criar subtextos nessa relação cineasta-obra, o que é facilmente percebido por qualquer pessoa que acompanha sua filmografia, o próprio filme faz questão de escancarar por meio de diálogos. Se segue sendo divertido o timing do espanhol para piadas e desconfortos, como a da médica não entendendo o termo “cult” no cinema e acreditando ter um cunho religioso, demonstra também um certo esgotamento de Almodóvar em lidar com as mesmas questões que o afligem durante cinco décadas desde que decidiu levá-las às telonas.

Por outro lado, o longa vai funcionar melhor quando assume de fato um tom melancólico e pessoal do autor com sua própria carreira e impossibilidade de um preenchimento total de suas satisfações e uma resolução para todas suas aflições. Então, se não há nada de muito inesperado no trato que ele dá para essas camadas de filmes dentro do filme e na relação autoconsciente da obra consigo mesmo, por baixo de tudo isso há a verdadeira crise de Raúl (leia-se, o próprio Almodóvar). Se o cineasta emenda um filme no outro, não consegue parar de escrever e filmar, e chega em um momento da vida que abre mão de participar de homenagens e festivais de cinema para seguir escrevendo incessantemente, é o sentimento de alguém chegando aos 80 anos vendo seu tempo se esgotando.

Cria-se então um sentimento ambíguo. Primeiro o de olhar para trás, perceber tudo que realizou, como aquilo é parte dele, fazendo-o assim perceber cada obra não como um filme único, mas como parte de um organismo em constante construção de uma filmografia maior. Segundo e mais doloroso, a sensação de finitude e a impossibilidade de completar sua obra. Por isso, Raúl segue inserindo acontecimentos, personagens e tudo aquilo que cerca seu corpo e sua mente. Não vemos a obra finalizada, mas fragmentos dela, muitas vezes sem tanto sentido, já que figuras são inseridas e esquecidas a partir da relação de Raúl naquele momento de escrita (uma das melhores brincadeiras do longa está relacionada a isso). Ao mesmo tempo, o cineasta sente que precisa seguir escrevendo e nunca chegará ao final, nunca sentirá uma completude, sua filmografia sempre estará inacabada, mesmo quando realizar todos os seus filmes e não estar mais aqui presente em corpo. É essa ironia que marca Natal Amargo, ao mesmo tempo que Almodóvar sente que nunca deixará de ter coisas faltando em sua obra, o longa é também um dos seus que mais trazem o sentimento de repetição.

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