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|Crítica| 'Aventuras nas Alturas' (2026) - Dir. John Travolta

|Crítica| 'Aventuras nas Alturas' (2026) - Dir. John Travolta

Crítica por Victor Russo.

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'Aventuras nas Alturas' / Apple TV

 

Título Original: Propeller One-Way Night Coach (EUA)
Ano: 2026
Diretor: John Travolta
Elenco: Clark Shotwell, Kelly Eviston-Quinnett, Ella Bleu Travolta e Olga Hoffmann.
Duração: 60 min.
Nota: 2,0/5,0

 

Estreia de John Travolta na direção tem quase nenhuma ambição para além de uma visão nostálgica do cineasta com a aviação

Com apenas uma hora de duração, a estreia de John Travolta na direção, após cinco décadas atuando na indústria, encontra na Apple TV+ a parceira perfeita e em um Festival de Cannes esvaziado de grandes nomes a oportunidade para uma pequena promoção. O média-metragem, formato que por si só raramente existe fora dos streamings ou dos festivais de cinema, revela tanto um valor de produção quanto uma falta de ambição. O que leva um ator a finalmente dirigir um filme depois de tanto tempo? No caso de Travolta, demonstrar seu amor pela aviação (e empregar boa parte da família no processo).

Em teoria, Aventuras nas Alturas (título brasileiro, tão genérico quanto o filme, para Propeller One-Way Coach), parte de uma premissa interessante (e possivelmente limitadora): acompanhar um garoto, nos anos 60, na “era de ouro” da aviação, mudando-se para Los Angeles, onde a mãe conseguiria um suposto trabalho como atriz, enquanto acompanhamos basicamente o trajeto. Claro que essa viagem vem carregada das analogias e temas mais óbvios e abordados de forma bem pouco complexa, como a viagem como transformação e amadurecimento, a dificuldade de ser mãe solteira naquele período e no meio ao qual faz parte, os sentimentos intensos da pré-adolescência, que acredita ter sua vida modificada e resolvida em poucas horas etc.

Se o estreante Clark Shotwell até dá uma graça para o seu personagem, na prática, Aventuras nas Alturas não passa de um filme que só é interessante de fato para o seu realizador. Travolta segue à risca a ideia do cineasta falar sobre o que sabe, conhece e sente, não escondendo o ar cinebiográfico, carregado de um forte saudosismo para com sua infância e os temas que lhe atraem. Assim, nesse caso, a viagem de avião deixa de ser apenas uma metáfora ou um espaço cênico, transforma-se de fato no principal interesse do longa. Mais do que os personagens, acontecimentos ou o pôr em cena, Travolta realmente deseja demonstrar o quanto ele ama aviões e nada muito além disso.

Assim, apesar do decente trabalho técnico, de reconstituição visual da época, pouco resta para além de uma nostalgia incapaz de transmitir ao espectador aquilo que o diretor sente. Travolta filma a viagem apenas porque aquele momento e aquela paixão marcaram sua vida. É como se não houvesse de fato a capacidade de transformar aquilo em linguagem cinematográfica, em pensar a história a partir da construção visual mais lúdica que o média sugere.

Dessa forma, Travolta não tem muita vergonha (ou talvez nem perceba) que recorre a uma abordagem não só genérica, como meio primária. A imagem não tem poder, o filme é fotografado a partir daquele imaginário da época que o próprio cinema construiu, e agora visto apenas como um certo pastiche daquilo. A música acompanha esse sentimento mais óbvio do personagem e das situações, sem ludicidade ou mistério. E, claro, tudo é arrebatado por uma narração em off feita pelo próprio Travolta.

Esse voice over talvez seja uma síntese do filme. Primeiro, o criador colocando a si mesmo para narrar o evento de sua infância e o seu interesse pela aviação. Segundo, sendo tão presente por todo o filme que impede os personagens de evoluírem ou existirem, já que tudo que falam, pensam e sentem é automaticamente repetido por aquela voz sempre presente, mais uma vez revelando a falta de qualquer mistério a ser desvendado pelo espectador. Terceiro e dotado de sentimento semelhante, um certo desprezo não intencional pela imagem. Nada que está em tela de fato tem valor para o cineasta, a partir do momento que ele explica até o que estamos vendo. Se o média definitivamente não é mal intencionado, nem teria por que ser, ele é apenas bobo em absolutamente tudo que faz.

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