|Crítica| 'Todo Mundo em Pânico' (2026) - Dir. Michael Tiddes
Crítica por Victor Russo.
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'Todo Mundo em Pânico' / Paramount
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Retorno da franquia traz a paródia de volta para o cinema, fazendo da volta do elenco original discurso para o conflito entre o humor de outrora com as sátiras contemporâneas para convertidos
Todo Mundo em Pânico provavelmente nunca terá o nível de sagacidade e compreensão das possibilidades da linguagem cinematográfica para gerar humor como em seu terceiro e quarto filme. David Zucker, um dos grandes mestres da paródia, é único e não importa o quanto os irmãos Wayans se esforcem (eles definitivamente não se esforçam), jamais serão capazes de chegar próximo daqueles dois marcos da franquia. Porém, isso não quer dizer que quando os Wayans estiveram a frente de Todo Mundo em Pânico foi um desastre, muito pelo contrário. Até hoje, talvez os mais lembrados pelos fãs sejam os dois primeiros (o primeiro muito bom, o segundo nem tanto), e a única desandada até agora foi no quinto filme, sem Zucker e os Wayans. O sexto, de volta com os Wayans, é bom o suficiente para que os fãs aguardem novas sequências e a paródia respirar de novo nos cinemas.
Mas comecemos pelo início. Depois de Pânico, e a genialidade de Wes Craven (que já havia ensaiado tal proposta em Um Novo Pesadelo), surgir como pilar para a sátira autoconsciente da indústria e do cinema de horror, não demorou muito para os Wayans dobrarem a aposta, criando uma paródia a partir da sátira, o que é um tanto mais difícil do que parece, já que o universo de Craven já vinha carregado de uma forte dose de humor e comentários facilmente reconhecidos pelos fãs à respeito de Hollywood. Parte do interesse estava justamente em replicar planos, copiar as obras originais que serviriam de piadas, antes de exagerar no contexto e, claro, criar piadas centrais para cada um daqueles quatro personagens (que retornam nesse novo filme). Após um segundo longa, que não consegue de fato traçar uma linha narrativa e parece um amontoado de esquetes apenas (algumas ainda bem engraçadas), é Zucker quem coloca a franquia em outro patamar, expandindo o universo desses personagens, sendo ainda mais detalhista nas referências e mais sagaz ao rompê-las em punchlines absurdas. É com ele que a franquia tem uma espécie de final, em 2006, quando as paródias começavam a demonstrar forte desgaste (ainda que populares nos anos 1980, foi Todo Mundo em Pânico quem abriu o portão para uma tendência hollywoodiana, repleta de filmes fracos, apelativos e pouco imaginativos, que tentavam parodiar qualquer grande sucesso no período, surgindo bombas como Os Espartalhões e Os Vampiros Que Se Mordam).
Se os quatro primeiros longas foram lançados em aproximadamente seis anos, demoraram sete anos, quando a paródia já não tinha mais presença nas telonas, para trazer Todo Mundo em Pânico de volta, em um quinto filme que busca surfar desesperadamente no sucesso dos primeiros a partir de filmes populares do terror do período e memes daquela época de começo do fortalecimento das redes sociais. O projeto nasceu e logo morreu, assumindo o posto com sobras de pior filme da franquia. É justamente a partir desse primeiro retorno que podemos começar a pensar nesse novo resgate, 13 anos após o quinto e 20 depois da tetralogia original.
Todo Mundo em Pânico (e a paródia de forma geral) sempre dependeu de um contexto do período para se fazer reconhecida. É justamente essa percepção que faz o cenário atual parecer muito mais complicado para o retorno dessa franquia do que de tantas outras que inundam as salas de cinema, incluindo Pânico, que prometia ironizar essa prática hollywoodiana em seu retorno, mas se transformou justamente no que pretendia tirar sarro. A paródia não só não existe mais em Hollywood,como tentar apostar nessa vertente da comédia parece fora de moda perante a visão dominante contemporânea, sobretudo se seguindo a linha de humor dessa franquia. Vivemos um período em que a sátira (quase sempre óbvia e explicativa) é tão popular na indústria americana justamente porque ela replica esse período cético de redes sociais, o falar e ironizar apenas para os “convertidos” aplaudir. Uma época da autoironia condescendente que pouco realmente provoca a indústria e os poderosos. O momento em que os milionários permitem serem transformados em caricaturas inofensivas e até bancam esses projetos (Barbie é um ótimo exemplo disso).
Assim, se Todo Mundo em Pânico retorna visando comercialmente sua base de fãs e uma espécie de nostalgia dos anos 2000 ao trazer Anna Faris, Regina Hall e os irmãos Wayans de volta aos seus papéis habituais, há muito mais intenção do que apenas lucrar com a obra. A ironia que Pânico 5 sugeria, mas não sabia o que fazer com ela, a respeito dos requels (franquias que retornam depois de muitos anos atualizando o elenco principal para ter vida longeva, mas trazendo os personagens originais em pontinhas ou para serem mortos a fim de não perder a base de fãs), os Wayans transformam na linha narrativa e de humor do longa. Trazer o quarteto de volta não é só piscadinha para fã, é uma forma de criar o conflito entre o humor dos anos 2000 - aqui sustentado pelo resgate à paródia e ao mais bobo das piadas com drogas e sexo - e o mais domado da sátira e da comédia em tempos de internet, em que ninguém se arrisca, todos parecem ter medo do cancelamento ou de desagradar a sua própria base política.
O longa traz inclusive o debate político para frente do discurso, tira sarro de todo mundo, errando feio com alguns personagens, mas acertando em cheio em outras piadas. A própria estrutura narrativa faz eco a esse pensamento de resgate da paródia, de ruptura ao mais convencional das redes sociais. Não à toa, inicia dando protagonismo ao elenco mais jovem para depois praticamente ignorá-los em prol do quarteto central, com quem encerra o filme e tem as piadas mais inspiradas. Ainda que no processo não acerte sempre, perca uma linha narrativa, quase parecendo uma sequência de esquetes, a fim de construir uma metralhadora de piadas com muitos filmes e personagens do cenário político atual (aquela cara de filme com muitos roteiristas em que cada um quer fazer presente o seu humor e as suas piadas), caindo até em alguns lugares mais comuns, quando acerta o tom, Todo Mundo em Pânico é engraçado como poucos e muito mais perspicaz ao tirar sarro da indústria e ser autoconsciente do que quase todas as sátiras contemporâneas.


