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|Crítica| 'Uma Infância Alemã' (2026) - Dir. Fatih Akin

|Crítica| 'Uma Infância Alemã' (2026) - Dir. Fatih Akin

Crítica por Raissa Ferreira.

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'Uma Infância Alemã' / Imovision

 

Título Original: Amrum (Alemanha)
Ano: 2026
Diretor: Fatih Akin
Elenco: Jasper Billerbeck, Diane Kruger, Kian Köppke, Laura Tonke e Hark Bohm.
Duração: 93 min.
Nota: 2,5/5,0
 

Com coming of age na segunda guerra mundial, Fatih Akin aposta no apelo da jornada de seu protagonista

Amrum, título original, é também nome da ilha verdadeira na Alemanha em que se passa o filme, coração desta história. A narrativa, emprestada das memórias daquele que seria o primeiro diretor da obra, Hark Bohm, foi assumida por Fatih Akin após a morte do amigo. Possivelmente por isso, há tanta nostalgia impregnada na fotografia, que observa as paisagens do lugar remoto e vazio o engrandecendo, e tanta isenção com os valores nazistas ao redor do pequeno protagonista. Embora a tradução para Uma Infância Alemã já deixe claro que trata-se de um coming of age, a intenção original se conecta mais à proposta de Akin, de se debruçar no desenvolvimento do personagem por meio de sua ligação com o espaço físico.

Deve ser impossível contar quantos filmes sobre a segunda guerra mundial já foram feitos, todos os anos o número aumenta e dificilmente há algo novo e refrescante nesse sentido. Uma Infância Alemã entra na infinita prateleira de obras medianas que abordam a maior cicatriz insuperável da humanidade, trazendo uma perspectiva conciliadora, o que também não é novidade. Nanning (Jasper Billerbeck) tem 12 anos e vive em Amrum com as mulheres e crianças da família, já que o pai faz parte do exército nazista, e a cidade em que viviam na Alemanha fora destruída pelos bombardeios. A ilha remota se torna um lar temporário e precário, mantendo o distanciamento adequado dos horrores do holocausto.

A chegada de refugiados da Polônia, logo nas primeiras cenas, é o momento em que a bolha de Nanning é rompida, trazendo para perto o que está acontecendo longe. Com uma mãe fã de Hitler, familiares nazistas e outros tantos vizinhos que não apoiam a guerra, ou já se cansaram das consequências dela, o garoto é colocado em confronto com a única realidade que lhe foi apresentada, enquanto tenta compreender sua origem. Essa jornada, no entanto, foge de bater de frente com o lado obscuro da herança ideológica do protagonista e não chega a lugar nenhum sobre suas raízes com o lugar e com as crenças de seus pais. 

Nanning até começa a ver a falta de sentido em suas saudações nazistas e lemas, mas Uma Infância Alemã teme colocar a criança em situações mais complexas. O longa limita o desenvolvimento do personagem a cenas violentas que pouco colocam em xeque o que realmente incomoda, expondo mortes de animais e pessoas como esse rompimento didático com o fim da inocência. Da mesma forma, o menino dividido entre salvar a bicicleta, sua boina ou o açúcar no meio das águas subindo, traz uma figura de linguagem batida e superficial. 

A busca pelos ingredientes fundamentais para agradar a mãe, pão branco, manteiga e mel, revela a miséria deixada pela guerra. A ilha tem poucos recursos, principalmente por conta do que acontece longe dali. Assim, Akin floreia em uma jornada do heroi, as pequenas missões de Nanning, em seus muitos escambos e negociações, romantizando a situação deplorável com a intenção de fortalecer o apelo à conexão de quem assiste com o pobre garoto, desesperado para agradar uma mãe em depressão pela morte de Hitler, e que só o maltrata. Se esta até é condenada pelo longa, retratada com rancor e soberba, é porque o peso da conciliação está todo em Nanning, sempre gentil, cuidadoso e humano, culminando na cena afetiva com a menina refugiada, que aleatoriamente o presenteia ao fim, fazendo acenos otimistas a novos tempos. 

O crescimento de Nanning divide o foco do longa com o cenário Amrum, porém, Akin não consegue criar um resultado que fuja da sombra das obras da segunda guerra mundial. Uma Infância Alemã está impregnado com a fotografia lavada que busca a Alemanha daquele período, com o silêncio e o ritmo típicos de quem está preocupado em contar uma história sobre um tema delicado e, infelizmente, da falta de interesse ou paixão necessária para dar luz a um filme que não seja só mais um recorte genérico. A complexidade de crescer com pensamentos herdados e encontrar o fim de sua ideologia ainda na infância, talvez fosse uma base interessante, mas Akin certamente não tem conexão suficiente com essa ideia para se aprofundar nela da maneira devida. Assim, lhe sobra generosidade e conciliação, falta pensamento crítico, e o resultado se sustenta apenas no carinho com as paisagens de uma ilha. 

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