|Crítica| 'O Convite' (2026) - Dir. Olivia Wilde
Crítica por Victor Russo.
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'O Convite' / O2 Play.
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Olivia Wilde veste disfarce bergmaniano para construir uma comédia que provoca o desconforto da sociedade contemporânea frente ao simples desejo sexual
O Convite é um daqueles filmes que podem gerar tanta rejeição quanto paixão pelos motivos errados (ou “menos certos”). Imediatamente virão as comparações mais óbvias, a obras de Ingmar Bergman e sua investigação social e psicológica, como Cenas de um Casamento, o marco da transposição teatral para o cinema em filmes que se passam em poucos espaços durante uma noite que vai aumentando a temperatura das discussões de um casal em Quem Tem Medo de Virginia Woolf?, de Mike NIchols, além de exemplos um pouco mais recentes, como O Deus da Carnificina, também representando dois casais em uma casa durante uma tarde e os conflitos e traumas que vão sendo colocados para fora, e toda a filmografia de Noah Baumbach e essa certa superficialidade de uma elite intelectual. Automaticamente, muitos cinéfilos acharão os debates levantados por Olivia Wilde super complexos e reveladores sobre uma relação conjugal (não são exatamente), enquanto outros acusarão o filme de ser batido e muito menos inteligente do que pensa (apontamento não tão condizente com a obra em si).
Após estrear na direção com o bom coming of age Fora de Série, seguido pela fraca distopia feminista Não Se Preocupe, Querida (um remake não oficial de Mulheres em Conflito), Wilde chega agora ao seu melhor filme, que conserva um pouco do desconforto do segundo, muito comum nesse filme de discussões de casais em um apartamento durante uma noite, mas muito mais habilidosa ao revelar gradualmente e com sutileza os seus reais interesses. Se o quarteto, que é praticamente o elenco todo do longa, é um destaque óbvio, o normal para o tipo de obra cinematográfica que tem sua base uma premissa um tanto teatral de espaço, tempo, atuação e texto (mas Wilde vai muito além disso), quando o filme se resume a investigar a relação entre Joe (Seth Rogen) e Angela (Wilde) ele cai no lugar mais comum sobre casais que vão perdendo a paixão e o interesse um no outro após muitos anos, varrendo para debaixo do tapete muitos incômodos nunca ditos.
Se isso ocorre, em parte é por conta da trilha marcada e intrusiva dos primeiros minutos, que tenta aumentar uma tensão que já está presente em tela, mas, principalmente, porque esse interesse meramente de discutir relacionamentos é apenas a ponta do iceberg em O Convite. Wilde reveste a superfície da obra com esse sentimento mais bergmaniano, ao qual muitos não irão além em suas percepções, para ir se revelando, a partir da introdução de Hawk (Edward Norton) e Piña (Penélope Cruz), como uma comédia que flerta com sexo, enquanto tira sarro de um período contemporâneo de extremo conservadorismo, tanto à esquerda quanto à direita, em que o desejo e o tesão vão sendo reprimidos por argumentos que vão desde dogmas religiosos, passando pela problematização do corpo e da exibição, até um mundo de redes sociais em que ninguém mais se entrega aos sentimentos e vontades, enquanto sempre estão problematizando as sensações mais humanas e observando-as a partir de um escopo distanciado para pertencimento de grupo.
É essa dinâmica que a narrativa passa a construir habilmente, inclusive pelo olhar da câmera de Wilde e o que ela deseja observar. Hawk e Piña não são apenas catalisadores para a abertura mais íntima dos problemas de Joe e Angela, eles são os controladores da situação, mesmo que não revelem isso desde o início. Dá para perceber como eles têm mais informações que o público (este sempre tem a percepção e o compartilhamento de sentimento de Joe e Angela), assim como escondem seus reais interesses e se divertem no processo (o que é perceptível nas risadinhas Norton e Cruz e as provocações constantes de seus personagens).
Assim, o desconforto que parte disso, do falar sobre sexo, desejar outros corpos, mas nunca finalizar essas vontades (uma ironia com a sociedade contemporânea), surgem pelo bom texto do longa, mas principalmente pela percepção de que o público está no marasmo de Joe e Angela, então quando Piña e Hawk provocam o casal principal eles geram um desconforto engraçado em toda uma plateia que se desacostumou com o mais básico e ri infantilmente por não saber mais lidar com o sexual. É verdade que Wilde não para por aí e tira sarro também do casal de “intrusos” ao perceber neles aqueles que se acreditam super subversivos por explorarem os próprios corpos e tentar dar uma dimensão espiritual para isso.


